Nos últimos anos, tenho observado um movimento preocupante nas empresas: a saúde mental ganha espaço em setembro, mês marcado pelo Setembro Amarelo e pela conscientização sobre a importância do cuidado psicológico, mas muitas vezes é tratada como uma pauta pontual ou sazonal, em vez de fazer parte do ecossistema da organização ao longo de todo o ano. Palestras, campanhas e ações de conscientização são importantes para estimular os colaboradores a desenvolver e manter uma vida psíquica saudável, mas, isoladamente, não são suficientes para enfrentar um problema.
De acordo com o relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, apenas 34% dos trabalhadores globalmente estão em uma situação considerada de thriving, ou seja, apresentam elevado nível de bem-estar. Os outros 56% estão em situação de “struggling”, enfrentando dificuldades em sua avaliação de vida. O cenário também tem impacto econômico: segundo o levantamento, o desengajamento no trabalho representa um custo de cerca de US$10 trilhões em produtividade perdida para a economia mundial. A saúde mental é uma questão relacionada às pessoas, mas também um desafio estratégico.
Dentro do ambiente de atendimento ao cliente, especificamente, a pressão por metas, o alto volume de interações, reclamações, situações de conflito e a cobrança constante por produtividade podem formar uma verdadeira avalanche de fatores de estresse para quem está na linha de frente. Nesse cenário, o principal questionamento que devemos fazer é: quem cuida de quem cuida do cliente?
Na prática, a NR-1 se torna uma importante aliada para enfrentar esse desafio. Atualmente, a norma é quem direciona como estruturar ambientes que protejam e instruam emocionalmente quem está na linha de frente cotidianamente. O cuidado com a saúde mental não deve depender apenas da capacidade individual de um líder em identificar sinais de sobrecarga, mas estar incorporado à forma como a empresa como um todo organiza, acompanha e revisa o trabalho.
As organizações devem buscar mapear os fatores que possam afetar a saúde dos colaboradores, como excesso de demandas, pressão contínua, jornadas inadequadas, conflitos, assédio, falta de autonomia ou de clareza sobre as responsabilidades. A identificação desses riscos deve ser acompanhada por medidas preventivas e por mecanismos de monitoramento capazes de apontar quando uma determinada condição de trabalho precisa ser revista.
As lideranças também têm um papel importante nesse processo, mas dentro de uma estrutura de responsabilidade compartilhada. É preciso oferecer preparo para que os gestores reconheçam situações que mereçam atenção e consigam acionar os canais e profissionais adequados, sem transformar o líder em responsável individual pela saúde emocional da equipe. RH, áreas de Saúde e Segurança do Trabalho e alta gestão precisam atuar de forma integrada, com protocolos claros de acolhimento.
Campanhas de saúde mental precisam, portanto, ser acompanhadas por mudanças reais na organização do trabalho. Empresas são estruturas formadas essencialmente por pessoas, que sentem, enfrentam desafios, entregam resultados e esperam ser vistas e acolhidas. Enquanto o mês de Setembro Amarelo for apenas uma pauta institucional, os resultados serão afetados pela negligência da empresa em identificar e tratar os gargalos psicoemocionais de seus colaboradores.